Se tem uma coisa que a indústria dos jogos eletrônicos é inundada é de confusão, isso dês da primeira geração de consoles. Tivemos a grande briga da Magnavox vs Atari pelos direitos de Pong, a exclusividade forçada dos jogos de Nintendinho e a recente briga entre Microsoft e Sony por conta de Call of Duty. 

O Capcom Five foi um acordo que iria trazer a salvação do GameCube. A chegada de cinco grandes lançamentos da Capcom exclusivamente para o console da Nintendo prometia abalar a indústria e aquecer a guerra contra o poderoso PlayStation 2. Porém, a história não acabou bem assim.

A crise da Nintendo com desenvolvedores terceiros

Para entendermos toda essa confusão devemos voltar até a 4ª geração de consoles. Embora os cartuchos ainda estivessem em alta na época, o CD já se mostrava como a próxima mídia do mercado. Ele oferecia uma maior capacidade de armazenamento e uma qualidade de áudio muito melhor.

Nesse período ocorreu o que vamos chamar aqui de “corrida dos CDs”. Todas as fabricantes de consoles queriam que seus produtos tivessem suporte a nova mídia, inclusive a Nintendo. 

A primeira tentativa de um Super Nintendo com entrada de CD foi em parceria com Sony, porém no evento em que o protótipo do console foi mostrado, a Nintendo anunciou uma parceria com a Philips.

O azar da Big N foi tão grande que a partir da revolta da Sony nasceu o seu maior rival comercial , o PlayStation, e a Phillips passou a perna na japonesa e criou o seu próprio console, o Philips CDI. E como se já não bastasse, o acordo ainda permitiu que jogos de Zelda e Mario fossem desenvolvidos para o CDI. O resultado foi a maior abominação já feita com as suas franquias.

Totalmente abalada com que suas ações geraram, na 5ª geração, a Nintendo permaneceu usando os tradicionais cartuchos. O resultado disso foi praticamente todos os estúdios terceiros migrando para o novo console da Sony. Além de usar CD e ter várias funcionalidades, o PlayStation ganhou status de “queridinho” entre os desenvolvedores por ser uma plataforma amigável de se trabalhar.

Com isso, a Nintendo teve que dar um show e lançar obras memoráveis feitas por estúdios internos. Legend of Zelda: Ocarina of Time e Super Mario 64 são jogos lendários, porém se formos olhar bem, o Nintendo 64 não tem tantos jogos relevantes feito por outros estúdios. Quem se destaca é o porte milagroso de Resident Evil 2 feito pela Angel Studios, que hoje conhecemos como Rockstar San Diego.

Finalmente chegamos na 6ª geração de consoles. Diferente do Nintendo 64, o GameCube abandonou os cartuchos e abraçou os discos, porém em miniatura. Infelizmente essa nova mídia acabou não vingando. Ela era mais cara e não tinha muito espaço de armazenamento, diferente do DVD, que era a mídia usada no PlayStation 2 e Xbox, que além de ser mais barata, comportava  arquivos maiores.

Mesmo em um cenário parecido com o da geração anterior, uma pessoa ainda acreditava no potencial do console da Nintendo, e esse alguém era Shinji Mikami, o criador de Resident Evil. Ele usou sua influência na empresa para investir contudo no GameCube. Graças a Mikami, o remake do primeiro Resident Evil e Resident Evil 0 (que inicialmente seria lançado para o N64) foram lançados como exclusivos do console da Nintendo (hoje em dia você encontra eles em qualquer canto).

Capcom Five

Agora chegamos no ano de 2002. O PlayStation 2 reinava soberano no mercado, o Dreamcast já havia falecido, o Xbox dava seus primeiros passos com a benção de The Rock e o GameCube atordoado com o mercado dando as costas para ele. Porém a Nintendo tinha uma carta na manga, uma super parceria com a Capcom. 

Em novembro daquele ano, em uma coletiva de imprensa, a Capcom liberou um trailer com cinco jogos que seriam exclusivos de Gamecube e estavam programados para ser lançados a partir de março de 2003. 

Esse acordo tinha a difícil missão de aumentar a popularidade e incentivar outros desenvolvedores terceiros a investir no console. Com isso, o GameCube teria poder de fogo para brigar com mais força contra o império do PlayStation 2.

O Capcom Five era composto por Dead Phoenix, PN03, Killer 7, Viewtiful Joe e o aguardado Resident Evil 4. Uma curiosidade interessante é que a versão de Resident Evil 4 que aparece no trailer do Capcom Five é a “Castle”, que tinha um foco maior no terror e serviu de base para Hunting Ground.

Todos os jogos contaram com o envolvimento de Shinji Mikami, uns ele atuou como produtor e outros como diretor, e quase todos foram desenvolvidos pelo estúdio interno da Capcom, Production Studio 4.

Dead Phoenix

Dead Phoenix é um shoot’em up 3D onde o jogador controla um homem alado e um cenário mitológico dirigido pelo próprio Mikami. Ele parece uma mistura de Panzer Dragoon e Legendary Wings. A parte triste é que ele foi cancelado em agosto de 2003. O único material que existe sobre esse jogo está no trailer do Capcom Five.

PN03

PN03 é um shooter arcade em terceira pessoa com temática futurista dirigido por Mikami. Nele controlamos Vanessa, uma mercenária que vive dançando em meio a tiroteios contra robôs. Ele possui foco na velocidade e estratégia. Não é possível andar e atirar ao mesmo tempo, então é preciso saber o momento certo para se focar nos disparos e ter atenção para se esquivar no momento certo.

Segundo Hiroyuki Kobayashi, o objetivo da equipe era fazer um jogo que fosse divertido de assistir e de jogar. A ideia inicial era que a protagonista usasse armas de fogo, porém por conta do cronograma apertado, foi decidido que ela dispararia raios de energia.

PN03 acabou não indo muito bem e recebendo críticas não muito favoráveis. Embora tenha fracassado, ele deixou sua influência em outros projetos, como Vanquish, também dirigido por Shinji Mikami. Por conta do molejo de Vanessa, muitos consideram PN03 uma espécie de predecessor de Bayonetta. 

Viewtiful Joe

Viewtiful Joe é um beat ‘em up side scrolling (famoso 2D) com lindos gráficos 3D em cel shading. Nele controlamos Joe em sua missão de resgatar sua namorada que foi transportada para dentro de um filme. A jogabilidade é bem simples, andar para frente e bater nos inimigos. 

O projeto foi dirigido por Hideki Kamiya, conhecido por dirigir Resident Evil 2 e ter criado Devil May Cry e Bayonetta. Segundo Atsushi Inaba, produtor do jogo, o seu objetivo era criar uma obra inspirada nas séries tokusatsu, como Ultraman e Kamen Rider, e quadrinhos americanos.

Viewtiful Joe foi aclamado pela crítica e bem recebido pelos jogadores. O seu sucesso foi tanto que lhe rendeu até uma série animada, que no Brasil era transmitido na RedeTV!. Eu inclusive conheci a franquia lá.

Killer 7

Killer 7 foi o único a não ser desenvolvido pela Capcom. Quem ficou responsável pelo projeto foi o estúdio Grasshopper Manufacture. Ele  é um shooter sobre trilhos com uma estética bizarra e ótimos gráficos em cel shading. A grande mente por trás dessa obra foi Goichi Suda (ou apenas Suda 51). Shinji Mikami atuou como produtor e ajudou no roteiro.

Killer 7 acabou dividindo a opinião dos críticos, mas entre os jogadores ele ganhou o status “cult” e até mesmo alavancou a carreira do diretor, que logo depois trabalhou em No More Heroes e Lollipop Chainsaw (que também contou com James Gunn).

Resident Evil 4 

Resident Evil 4 não precisa de apresentações, ele é só um dos jogos mais influentes da história. Podemos dizer que a cronologia dos jogos de tiro em terceira pessoa podem ser divididas em antes e depois da busca Leon.

A verdade veio à tona

Finalmente as coisas pareciam estar dando certo para a Nintendo. Seu console estava prestes a receber uma safra de jogos promissores com exclusividade. As luzes começaram a brilhar sobre o GameCube até que a Capcom USA esclareceu que houve um erro de comunicação e que apenas Resident Evil 4 seria exclusivo.

Isso foi um banho de água fria para Big N, mas pelo menos seu console iria ter como exclusivo o tão aguardado Resident Evil 4. Shinji Mikami chegou a dizer para o presidente da Capcom que a única forma de lançar o quarto capítulo da franquia no console da Sony era se ele fosse demitido. Bem… sabemos que a história não terminou bem assim.

No final das contas, dos quatro jogos lançados, apenas o PN03 permaneceu exclusivo de GameCube. Todos os outros deram as caras no PlayStation 2. Para piorar ainda mais a situação, Viewtiful Joe e Resident Evil 4 ganharam conteúdos exclusivos no console da Sony.

Essa situação gerou um desconforto entre Mikami e os executivos da Capcom, que acabaram criando um novo estúdio para que ele pudesse trabalhar. Assim nasceu a Clover Studios, que apenas produziu dois Jogos, God Hand e Okami, e foi dissolvida. Os ex- funcionários desse estúdio só criaram uma tal de Platinum Games. Inclusive os três primeiros jogos do estúdio foram anunciados no que foi chamado de “Platinum Three”.

Mikami também saiu da Capcom e ficou durante um tempo trabalhando como freelancer até fundar seu próprio estúdio, a Tango Gameworks, que hoje faz parte da Microsoft.

A Nintendo não terminou nada feliz com o desfecho do Capcom Five. Alguns rumores dizem que Big N não queria nenhum personagem da Capcom em Super Smash Bros Brawl. Aparentemente as empresas já fizeram as pazes, já que Ryu, Ken e Mega Man já participaram dos jogos seguintes.

E esse foi o Capcom Five. Uma história cheia de mentiras e revelações que poderia muito bem ser um roteiro de novela mexicana. Essa é apenas uma de várias histórias malucas da indústria dos jogos eletrônicos.

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