No período dourado dos jogos de luta, Capcom e SNK foram os grandes destaques com uma galeria vasta de jogo incríveis que são até hoje referência no gênero e também pela rivalidade histórica que rendeu provocações, acusações de plágio e até uma série de crossovers. Nesse artigo iremos desbravar a relação entre essas duas empresas que ajudaram a moldar os jogos de luta como conhecemos.

A explosão dos jogos de luta

No final dos anos 80 e início dos anos 90, a Capcom já era queridinha do público com seus grandes sucessos como Mega Man, Ghost ‘n Goblins e Final Fight. Já a SNK revolucionava os arcades e consoles com os poderosos Neo Geo MVS e AES.

Em 1991, a Capcom apresentava para o mundo o revolucionário Street Fighter II: World Warrios, jogo responsável por popularizar a pancadaria eletrônica e que virou uma verdadeira febre no mundo inteiro.

O sucesso foi tão grande que todas as desenvolvedoras queriam seu próprio jogo de luta para abocanhar uma parcela desses jogadores e faturar com esse verdadeiro surto de jogos do gênero. Uma das primeiras a entrar na onda foi a SNK com Fatal Fury: King of Fighters.

Vale mencionar que Fatal Fury e Street Fighter são criações do mestre Takashi Nishiyama e que o primeiro título de Terry e sua busca por vingança é uma continuação espiritual do Street Fighter de 1987, e quando Street Fighter II foi lançado, Fatal Fury ainda estava em desenvolvimento.

Art of Fighting: O Street Fighter da SNK?

Em 1992, a SNK lançava Art of Fighting, mais uma empreitada da empresa nos jogos de luta. O que logo chamou a atenção de todos foram suas notáveis semelhanças com Street Fighter II.

Existe uma grande discussão até hoje sobre ele ser ou não uma cópia, mas não dá para negar as grandes semelhanças entre essess dois jogos, como próprio Ryo, que parece ser uma mistura de Ryu e Ken, e até mesmo o seu nome se assemelha muito ao de Ryu. Também temos o fato de Ryo e Robert serem companheiros de treino e melhores amigos, sendo Robert um estrangeiro de família rica, e o fato dos dois terem jogabilidade semelhante, e sem contar John Crawley e sua semelhança com Guile. Até mesmo o cenário dos dois é parecido.

Mesmo com todas essas semelhanças, Art of Figghting foi um jogo inovador. Ele foi responsável por introduzir a mecânica de carregamento de energia, conceito que foi aproveitado em futuros jogos da SNK e que é quase obrigatório em jogos de anime. A sua principal contribuição foi a criação dos “Super Combos”, mecânica que foi abraçada em Street Fighter, que erroneamente leva os créditos pela criação da mecânica.

As provocações da Capcom

Mesmo Art of Fighting tendo sua originalidade, a Capcom não perdoou as semelhanças da franquia da SNK com a sua, então deu-se início a uma onda de provocações. A primeira cutucada da Capcom foi a famosa artwork onde Sagat segura um homem de kimono laranja e uma camisa preta por baixo semelhante à de Ryo, e com um penteado rabo de cavalo semelhante ao de Robert.

Artwork de Street Fighter II:Turbo

Esse tal homem espancado por Sagat serviu como base para criar Dan Hibbiki, a maior piada que a Capcom já fez a SNK. O personagem foi criado com o simples intuito de debochar da concorrente, até mesmo os seus golpes são semelhantes ao de Ryo e Robert. Uma outra alfinetada bem conhecida é o final de Dan em Marvel Super Heros vs Street Fighter, que nada mais é do que uma parodia do final de Art of Fighting

The King of Fighters: Um rival à altura

A SNK planejava lançar um beat em up com personagens de Fatal Fury e Art of Fighting com o nome de “Survivor”, mas os desenvolvedores decidiram fazer algumas mudanças. Então em 1994, foi lançado The King of Fighters 94, um crossover comemorativo da SNK que logo se tornou a principal franquia da empresa e eterna Rival de Street Fighter.

Além de contar com alguns personagens de Fatal Fury e Art of Fighting, o game trazia também alguns personagens de jogos antigos da SNK, como Psycho Soldier, Ikari Warriors e ainda trouxe alguns personagens inéditos, com destaque para o clássico time Japão, composto por Kyo, Benimaru e Goro Daimom, e o icônico chefe da franquia, Rugal Bernstein. O seu grande trunfo era a possibilidade de jogar com equipes de 3 personagens, diferente do tradicional um contra um dos outros jogos de luta.

O crossover dos sonhos

A franquia The King of Fighters não parava de crescer, a cada lançamento ela se superava e trazia novos recursos bem-vindos, como a possibilidade de criar suas próprias equipes, refinamento do combate e sem contar a sua história bem construída.

Com isso, a franquia foi conquistando uma legião de fãs devotos pelo mundo inteiro, gerando uma certa rivalidade entre os fãs de Kyo e companhia e Street Fighter. Era bem comum ouvirmos discussões de qual franquia era melhor. Alguns falavam que The King of Fighters era melhor pelo seu esquema de trios e história bem mais densa e elaborada, já outros afirmavam que Street Fighter era superior pela sua jogabilidade mais cadenciada e competitiva.

Em 1998, a revista Arcadia trazia artigos sobre The King of Fighters 98 e Street Fighter Alpha 3, jogos lançados no mesmo ano. A revista trazia em sua capa a citação “Kof vs SF”. Logo os fãs foram a loucura imaginando que existia um jogo onde os personagens das duas franquias se encontravam.

Revista Arcadia

Isso acabou ganhando grandes proporções e chegou aos ouvidos de Takashi Nishiyama, que na época, ainda trabalhava na SNK. Ele entrou em contato com Yoshi Okamot, seu amigo que trabalhava na Capcom e tem em seu currículo jogos como Final Fight e Streeet Fighter II.

Nishiyama o questionou sobre uma possível colaboração entre as duas empresas. Okamoto abraçou a ideia e levou para os seus superiores. Surpreendentemente a ideia foi aprovada pelos engravatados das duas empresas, então foi criado um contrato que permitia que ambas pudessem produzir dois jogos de luta utilizando os personagens da outra.

SNK vs Capcom: Match of the Millenium

O primeiro jogo dessa parceria foi SNK vs Capcom: Match of The Millennium, produzido pela SNK. Diferente do que muitos esperavam, Match of The Millenniu não foi lançado para os arcades, mas sim para o Neo Geo Pocket, o portátil da SNK que tentava rivalizar com imbatível Game Boy, porém teve uma vida curta.

Longe do poder dos arcades, Match of the Millennium tentou trazer toda atmosfera de um verdadeiro jogo de luta para os portáteis, e até se saiu muito bem. Ele bebe muito da fonte de The King of Fighters R1 e R2, que são otímos jogos, tanto na sua gameplay quanto nos personagens no estilo chibi. O mini crossover é um dos melhores jogos de luta feito para os portáteis da época.

Infelizmente sua lista de personagens é praticamente composta por figuras de Street Fighter e The King of Fighters, com um personagem ou outro vindo de uma franquia diferente. Tirando isso, Match of The Millennium é um ótimo jogo de luta e ganhou vida nova no Nintendo Switch.

Capcom vs SNK: Millennium Fight 2000

Diferente da SNK, a Capcom procurou trazer uma experiência grandiosa e inovadores utilizando o melhor das duas empresas. Além de misturar mecânicas de The King of Fighters e Street Fighter, Capcom vs SNK: Millennium Fight 2000 inovou trazendo o sistema “Ratio”.

O Ratio é um número que representa a força de cada personagem, que vai de 1 a 3. A sua equipe precisa ser montada com um total 4 de Ratio, ou seja, você pode montar equipes com 2, 3 e até 4 personagens. O problema era que esse sistema te limitava na hora de montar sua equipe , por exemplo, é impossível por Sagat e Kim na mesma equipe, já que Sagat possui Ratio 3 e Kim Ratio 2. Para um jogo que reúne figuras de jogos diferente, impor essa tipo de limitação acabou desanimando.

HonestGamers - Capcom vs. SNK (Dreamcast)

Assim como Match of The Millennium, Millennium Fight 2000 é dominado por personagens de The King of Fighters e Street Fighter, com pouquíssimos personagens de outras franquias.

O crossover produzido pela Capcom não ficou preso só nos arcades. Uns meses depois ele foi portado para Dreamcast e no ano seguinte ganhou uma versão para PS1, intitulado Capcom vs SNK: Millennium Fight 2000 PRO. Essa versão trazia mais personagens e versões alternativas de alguns já existentes, e também um modo onde todos ficam com Ratio 2, dando mais liberdade de escolha.

Capcom vs SNK 2: Mark of the Millennium 2001

No ano seguinte, a Capcom revlou ao mundo aquele que poderia até receber o título de melhor jogo de luta de todos os tempos. Recolhendo feedback dos jogadores, a Capcom botou a mão na massa e criou uma das maiores obras de arte dos jogos de luta, Capcom vs SNK 2: Mark of The Millennium 2001.

Diferente da mistura tímida de mecânicas dos seus antecessores, Mark of the Millennium vai mais fundo e traz um número enorme de recursos de vários jogos das duas empresas, como o Just Defence, Parry, Alpha Counter, Rage Gaunge e diversas outras. Tudo isso separado em 6 sets de mecânicas.

Embora ainda sofra com uma lista de personagens composta em sua maioria por integrantes de Street Fighter e The King of Fighters, Mark of the Millennium 2001 conta com mais figuras de outros jogos como Garou: Mark of the Wolves, Last Blade, Rival School e Final Fight.

Vale mencionar seu destaque no cenário competitivo, ficando anos como um dos jogos principais na EVO (principal torneio de jogos de luta do mundo). Alguns jogadores que se destacaram foram Daigo Umehara, Bas, Combofiend, Justin Wong e Jhon Choy.

Além dos arcade, Capcom vs SNK 2: Mark of the Millennium 2001 saiu também para Dreamcast, PS2, Xbox original e para Nintendo Game Cube com o nome de Capcom vs SNK 2: EO Mark of the Millennium 2001.

A ascensão da Capcom e declínio da SNK

Enquanto a Capcom vivia um período próspero com franquias como Resident Evil e Devil May Cry estourando no mercado, a SNK ia a falência graças a uma série de decisões ruins.

Com o seu portátil perdendo a guerra contra o Game Boy, a SNK tentou lançar um card game chamado SNK vs Capcom: Card Fighters Clash (fora do contrato dos jogos de luta) para seu portátil, mas não foi o suficiente para se salvar. Card Fighters Clash até chegou a ganhar uma continuação para Nintendo DS, mas não agradou o público e amargou o fracasso.

Capa SNK vs Capcom: Card Fighters Clash (versão SNK) de Neo Geo Pocket

Mesmo com o grande sucesso de Mark of the Millennium 2001, a SNK não pôde ver a cor do dinheiro, já que a responsável pela produção de cada jogo ficava com 100% do lucro. Então em novembro de 2001, a SNK declarou o encerramento de suas atividades.

Em agosto do mesmo ano, Eikichi Kawasaki, fundador da SNK, criou uma nova empresa chamada Playmore e comprou boa parte das propriedades intelectuais da SNK e contratou alguns ex-funcionários em uma tentativa de fazer a empresa ressurgir das cinzas.

SVC CHAOS: SNK vs Capcom

Em 2003, no que parecia ser uma tentativa de cumprir com o contrato de dois crossovers, a Playmore lança SVC Chaos: SNK VS Capcom. Embora o game tenha sua parcela de fãs, ele trouce gráficos datados para época, trilha sonora nada marcante e escassez de efeitos visuais.

SVC Chaos não oferece a variedade de mecânicas que seus antecessores apresentaram. Ele traz um sistema de barra de super de três níveis, e ao alcançar o terceiro nível, o personagem entra no “Maximum mode”, mecânica semelhante à de The King of Fighters 2002, onde você pode cancelar um golpe especial em outro, porém aqui há também a possibilidade de usar quantos Supers você quiser enquanto esse modo estiver ativo.

O game foi desenvolvido para Neo Geo MVS, a placa de arcade da SNK que já foi sinônimo de poder, mas que na época já estava obsoleta. Infelizmente esse era o reflexo dos tempos sombrios da SNK, onde a empresa lutava para se reestruturar.

Além dos arcade, SVC Chaos ganhou versões para PS2 e Xbox original.

Caminhos distintos

Atualmente, a Capcom e a SNK vivem realidades opostas. A Capcom vive um dos seus melhores momentos com diversos lançamentos e grandes sucessos comerciais consecutivos. Já a SNK foi comprada por um grupo chinês chamado Ledo Millenium e busca reconquistar seu prestígio.

A clássica rivalidade entre as duas empresas já não é mais a mesma, porém ela ainda vive no coração de cada fã que teve a oportunidade de presenciar esse período dourado dos jogos de luta.

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